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Crise nas urgências: entre o caos e as reformas necessárias

Fotografia expõe falha estrutural nas urgências, com falta de cuidados paliativos e coordenação; é necessária uma reforma

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  • A fotografia de uma doente no chão de uma urgência e outra em maca dos bombeiros levanta questões sobre ética, o caos no serviço e o futuro do sistema de saúde.
  • A imagem mostra solidão: um filho ao lado da mãe sem apoio institucional, numa situação que deveria ser paliativa; levanta dúvidas sobre dor, dignidade e alternativas de fim de vida.
  • Portugal tem cerca de 64 episódios de urgência por 100 habitantes, o dobro da média da OCDE, com 45% destes episódios a ser pouco ou não urgentes.
  • Em 2023, casos pouco urgentes cumpriram tempos-alvo entre 78% e 85%, enquanto casos graves ficaram aquém: 44,4% nos muito urgentes e 66,5% nos urgentes.
  • A crise não resulta de falta de esforço dos profissionais, mas do desenho do sistema, que favorece cenários simples e penaliza os casos complexos; é necessária reformar cuidados primários, paliativos, gestão de macas e financiamento para incentivar evitar internamentos.

O objetivo da peça viral foi o foco de debate público: uma fotografia que mostrou uma doente deitada no chão de uma urgência, acompanhada pelo filho, por falta de macas. A veracidade é discutida, porém a desolação do cenário já mobiliza a sociedade para perguntas relevantes.

Ao fundo, outra pessoa repousa numa maca dos bombeiros, com a equipa e uma funcionária por perto. Entre estes dois quadros, mantém-se uma clareira de gente que passa, observa e segue. O registo, feito com telemóvel, levanta questões sobre privacidade e dignidade.

Este conjunto de imagens coloca três perguntas centrais: a ética da exposição, o real estado das urgências e o que o sistema de saúde pode ou deve fazer para o futuro.

Dados que sustentam o problema

Portugal regista cerca de 64 episódios de urgência por 100 habitantes, o dobro da média OCDE. Aproximadamente 45% correspondem a situações pouco ou nada urgentes.

Em 2024, 95% da população encontrava-se a menos de 60 minutos de uma urgência geral ou pediátrica, indicando disponibilidade geográfica. A questão não é o acesso, mas a organização do atendimento.

Análises de 2023 mostram que casos pouco urgentes atingiram tempos-alvo entre 78% e 85%, enquanto casos graves ficaram aquém: 44,4% nos muito urgentes e 66,5% nos urgentes.

Desafios operacionais

O congestionamento das urgências, conhecido como Emergency Department Crowding, tem impactos na mortalidade e na qualidade do cuidado. Não se trata apenas de tempo de espera.

Profissionais trabalham sob um desenho de sistema que favorece fluxos simples e pode dificultar casos complexos, exigindo tempo, camas e reavaliação, recursos que normalmente são escassos.

A gestão hospitalar envolve permanência, gestão de macas, internamentos e autonomia de enfermagem. O problema não é a falta de dinheiro, mas a forma como os incentivos alinham-se ao cuidado efetivo.

Caminhos de reforma

A reforma dos serviços de urgência passa pela integração de cuidados paliativos, primários e hospitalares, não por medidas pontuais. É preciso fortalecer atividades comunitárias e a prevenção de agudizações desnecessárias.

Modelos de financiamento que premiem a redução de internamentos, bem como a utilização de tecnologia de apoio à decisão, podem melhorar a eficiência. Existem experiências em parceria público-privadas que apontam caminhos, desde que transformadas em regra institucional.

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