- A pediatra Clara Abadesso trabalha na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos do Hospital Fernando Fonseca e defende tratar a dor infantil, que considera ainda negligenciada.
- No hospital existe o “Kit sem dor”, com distracção, livros, jogos, bolhas de sabão e realidade virtual, para reduzir o desconforto durante procedimentos; o material é adquirido com apoio institucional ou privado.
- A dor infantil deve ser avaliada de forma sistemática, usando escalas apropriadas e observando sinais não verbais; técnicas de distração e apoio dos pais ajudam a minimizar o sofrimento.
- A dor em crianças pode gerar memórias traumáticas; é fundamental uma abordagem multidisciplinar e o uso adequado de analgesia, incluindo opioides quando necessários, seguindo protocolos.
- É necessário mudar a cultura e as práticas em serviços de saúde para aplicar de forma sistemática as estratégias de prevenção e controlo da dor, em urgência, enfermaria e unidades de grande fragilidade.
Pediatra com formação em cuidados intensivos, Clara Abadesso dedica-se a prevenir e tratar a dor infantil, uma área ainda pouco valorizada, segundo a profissional. O foco é reduzir o sofrimento de bebés, crianças e adolescentes em contextos clínicos.
A entrevistada trabalha na Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, na Amadora. O objetivo é alinhar prática clínica com evidência e vencer o fosso entre o que sabemos e o que é aplicado.
Abadesso destaca que a dor infantil não é mera exceção, mas direito básico dos pacientes. A medicina tem evoluído, mas a implementação prática varia entre serviços de saúde e regiões, afetando o cuidado de crianças com dor.
Kit sem dor
No hospital existe o chamado “Kit sem dor”, composto por livros, bolas de sabão, jogos e brinquedos, usados para distrair a criança antes de procedimentos. Óculos de realidade virtual também integram a lista, com planos para ampliar o equipamento.
O material é adquirido sem financiamento específico; a equipa angaria fundos ou paga com recursos próprios. A prática visa reduzir a ansiedade associada a procedimentos como colheita de sangue ou vacinação.
A avaliação da dor é fundamental. Em crianças que comunicam, utiliza-se uma escala de expressão facial; em quem não comunica, profissionais observam sinais como expressão, posição corporal, batimentos e respiração para medir o desconforto.
Dor e sofrimento dos pais
Abadesso sublinha que cada caso de dor infantil envolve também os pais, que sofrem junto com a criança. A estratégia passa por tranquilizar e explicar que toda a intervenção procurará controlar a dor do filho com rigor.
A pediatra descreve a motivação de forma prática: distrair a criança e manter o colo dos pais durante procedimentos pode reduzir a dor e o trauma, além de melhorar a cooperação da criança.
Experiências e mudanças
A médica recorda momentos de formação e vivências internacionais que influenciaram a prática. Conta ter criado, em 2010, um núcleo contra a dor no departamento de Pediatria para promover a gestão da dor na prática clínica.
Abadesso assinala que a dor não se resume a um sintoma isolado. Medidas não farmacológicas, como respiração orientada, apoio dos pais e uso de distração, devem acompanhar a analgesia quando necessária.
A publicação também aborda casos graves, como a drepanocitose, que requerem uso de analgésicos potentes, incluindo opioides, sob protocolos que garantam segurança. O objetivo é evitar subutilização de recursos existentes.
Conclusões e perspetivas
A especialista defende que as intervenções para prevenir e tratar a dor devem ser padrão em saúde pediátrica, não exceção. O desafio é ultrapassar resistências culturais e organizacionais que atrasam a prática recomendada.
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