- No Dia Internacional da Educação, Rogério Martins analisa como a matemática é encarada em Portugal: vista como difícil, abstrata e pouco útil no quotidiano, o que afecta a motivação dos alunos.
- O professor da NOVA FCT defende que a matemática funciona como ginásio do cérebro, treinando uma forma racional de olhar para o mundo e não apenas para aplicar cálculos.
- A dificuldade tem várias causas, desde a natureza abstrata da disciplina à cultura do “bicho-papão” e à associação entre matemática e inteligência, com a ansiedade matemática a agravar o desempenho. Martins já identificou cerca de vinte razões para o problema.
- O papel do professor é central: é preciso criar ligações emocionais com o conhecimento e facilitar uma aprendizagem que vá além da simples transmissão de conteúdos.
- A Inteligência Artificial chega ao ensino da matemática, com exemplos de resolução de exames; é essencial decidir quando usar a tecnologia para não comprometer o raciocínio e a autonomia dos alunos.
Rogério Martins, professor de matemática da NOVA FCT e rosto do programa Isto É Matemática, explica, num contexto de Dia Internacional da Educação, por que a matemática é ainda vista como difícil pelos alunos em Portugal. A perceção de abstracção e desfasamento entre a disciplina e a vida prática contribui para a desmotivação.
A leitura pública da matemática confirma que a disciplina é muitas vezes associada à escola e à infância, pouco relacionada com o quotidiano adulto. Esta distância entre teoria e utilidade reduz o interesse por aprender, especialmente entre quem não vê aplicações imediatas.
Para Martins, a utilidade da matemática vai além das contas: influencia a forma como pensamos, tomamos decisões e entendemos o mundo. O treino ao longo da escolaridade constrói um lastro que determina escolhas importantes de vida, ainda que não sejam explícitas.
Ele defende que a matemática funciona como ginásio mental, fortalecendo o raciocínio e a capacidade de resolução de problemas. Encarar a disciplina como desporto ajuda a entender que o treino mental é tão relevante como aplicações práticas.
A complexidade da matemática deriva de várias causas, entre elas a natureza abstrata da disciplina. O cérebro humano tende a responder melhor a histórias, emoções e relações sociais do que a conceitos puramente abstratos, o que dificulta a aprendizagem.
Cultura de dificuldade, normalização de falhas e a ligação social entre a elegibilidade na disciplina e a inteligência alimentam a ansiedade matemática. Este fenómeno reduz o desempenho e cria ciclos de insucesso que se repetem.
Martins aponta que nem todos partem do mesmo ponto, mas acredita que a matemática é acessível a muitos com motivação adequada. Tal como muitos podem aprender basquetebol, quase todos podem aprender matemática com incentivo e reconhecimento.
O papel do professor é central, sublinhando a importância de criar ligações emocionais com o conhecimento. A educação em matemática não deve apenas transmitir conteúdos, mas também gerar frustração, entusiasmo e espanto controlados.
A emergência da inteligência artificial traz novos desafios ao ensino. Martins observa que a IA poderá resolver exames com facilidade, exigindo repensar metodologias, objetivos e o momento certo de recorrer à tecnologia.
Antes da IA, houve a introdução de dispositivos como a calculadora; a lição é semelhante: usar a tecnologia quando faz sentido, sem que a aprendizagem dependa dela. O desafio é manter o percurso de resolução de problemas.
Observa-se uma tendência de alunos buscarem soluções completas por IA, sem percorrer o trajeto de reflexão. Na universidade, o raciocínio é essencial, pois aprender envolve persistência, erro e tempo para resolver problemas sozinhos.
A longo prazo, o uso precoce de IA pode afectar a autonomia e o desenvolvimento do raciocínio crítico. O ensino de matemática, conclui Martins, requer momentos de dificuldade e superação como parte do processo formativo.
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