- A ordem internacional atravessa uma rutura estrutural, com a globalização económica já não assegurando uma ordem liberal, estável ou previsível.
- A China ascendeu a potência global via investimento estrangeiro e acesso aos mercados, mantendo controlo sobre setores estratégicos e oferecendo uma globalização selectiva.
- Os Estados Unidos aproximam-se de um unilateralismo estratégico, evidenciado pela National Security Strategy de 2025 e pela operação que removiu Nicolás Maduro, em janeiro de 2026.
- Os BRICS ganham relevância, procurando reduzir a dependência do dólar e criar vias de pagamento e instituições financeiras próprias, com atuação no Sul Global.
- O regime venezuelano e a presença de potências não regionais geram controvérsia internacional, refletindo uma transição para uma lógica de influência direta e menos alicerçada no direito internacional tradicional.
A ordem internacional atravessa uma rutura estrutural profunda. A ideia de que a globalização conduziria automaticamente a uma ordem liberal tem mostrado limites, com interdependência económica que não garante estabilidade política.
A China ascende como potência global graças a investimentos e acesso aos mercados ocidentais, mas mantém controlo sobre setores estratégicos e exige condições de acesso para estrangeiros. Os EUA recuam no multilateralismo, adotando um unilateralismo estratégico.
Desde as reformas iniciadas em 1978 e a adesão à OMC em 2001, a China integrou-se de forma seletiva, mantendo controle sobre energia, finanças e dados. O crescimento não correspondeu a liberalização política, antes reforçando um modelo de globalização seletiva.
Pequim expandiu influência no Sul Global: infraestrutura na América Latina e investimentos em África, em especial no âmbito da Belt and Road. Financiam projetos sem condicionantes políticas explícitas, em contraste com o modelo ocidental.
A Venezuela ilustra essa estratégia, com grande parte das exportações a entrar através da China para pagamento de dívida. Sanções americanas complicam vendas e transportes, enquanto empresas chinesas fortalecem presença estratégica no país.
As Federações BRICS ganham relevância além da cooperação económica, buscando reduzir a dependência do dólar. Promovem transações em moedas nacionais e estruturas próprias para limitar sanções extraterritoriais.
A resposta dos EUA é cada vez mais explícita. A National Security Strategy de 2025 coloca a América Latina como área vital, com foco em conter potências extra-regionais como China e Rússia. O multilateralismo perde peso na leitura estratégica.
A operação na Venezuela, que afastou Nicolás Maduro, é apresentada como resposta ao narcotráfico e à defesa da democracia. Washington sustenta tratar-se de uma medida de estabilização hemisférica, sem mandato da ONU.
Este enquadramento sugere objetivos estratégicos mais profundos, nem sempre alinhados com o direito internacional. A intervenção direta aparece como instrumento de influência em regiões consideradas estratégicas.
Neste contexto, o caso venezuelano simboliza uma transição maior: de regras partilhadas para uma lógica de influência direta, com zonas de interesse e uma legalidade internacional menos rígida.
O mundo parece entrar numa fase pós-ordem liberal. Os EUA reforçam a primazia, enquanto China e BRICS constroem redes alternativas. O século XXI fica marcado por equilíbrios instáveis e disputas por recursos estratégicos.
Entre na conversa da comunidade