- O coreógrafo grego Christos Papadopoulos apresenta, no Teatro Rivoli, no Porto, duas obras em estreia nacional: My Fierce Ignorant Step (24 e 25 de janeiro) e Mycelium (29 e 30 de janeiro).
- As peças mantêm uma abordagem minimalista do movimento coletivo, enfatizando a desaceleração do olhar e a ligação entre corpos, com foco no conjunto em vez de ações isoladas.
- My Fierce Ignorant Step nasce de um período de desencanto político e social, explorando energia gerada por um passo em movimento como forma de combate ao tempo e de busca por espaço comum.
- Mycelium resulta de fascínio pelas redes subterrâneas de fungos, utilizando a metáfora da comunicação invisível entre árvores para expandir o pensamento coreográfico e trabalhar com corpos habituados a uma tradição mais canónica.
- Papadopoulos afirma valorizar o processo criativo e o coletivo, defendendo que as obras são experiências que se constroem em conjunto e destacando que o ensemble é essencial para o sentido das peças.
No Teatro Rivoli, no Porto, Christos Papadopoulos apresenta dois trabalhos recentes em estreia nacional: My Fierce Ignorant Step e Mycelium. As peças chegam em janeiro, com sessões de 24 e 25 para a primeira e 29 e 30 para a segunda. O programa insere-se na linha de uma dança que privilegia o movimento coletivo e a desaceleração do olhar.
A coreografia de Papadopoulos concentra-se na energia das ligações entre corpos e na observação minuciosa do movimento. O autor procura uma forma orgânica de estruturar o trabalho, baseada na experiência de observação da natureza e na vida do próprio criador. A ideia é favorecer um tempo dilatado que revela mudanças sutis ao longo do tempo.
My Fierce Ignorant Step nasce num período de desencanto com guerra, clima e violência. A peça cruza uma energia emocional com uma memória de adolescência, procurando um espaço comum de convivência que emerge do trabalho colectivo. O foco está no coletivo, na cooperação e na interdependência entre os intérpretes.
My Fierce Ignorant Step
My Fierce Ignorant Step se ancora numa ética de força partilhada e na ideia de que o movimento pode ser mais intenso que um simples passo. A obra visa transmitir uma energia renovada de estar vivo, mesmo diante de impasses globais, sem apelar à sentimentalidade.
A interdependência entre corpos continua a ser central na encenação, onde cada ensaio funciona como espelho da vida dos bailarinos. O objetivo é demonstrar que a convivência harmoniosa é uma resposta possível para problemas contemporâneos, por meio de passos que se entrelaçam em espaço comum.
Mycelium, a segunda peça, foi criada para o Ballet de l’Opéra de Lyon e testa a relação entre corpos em contextos diferentes. A inspiração vem das redes subterrâneas de fungos que comunicam entre árvores, uma metáfora para a interconexão ecológica sem didatismo.
Christos descreve Mycelium como uma exploração de maravilhamento pela natureza, mais do que uma peça com mensagem ambiental explícita. O fascínio pela comunicação entre fungos e árvores sustenta a imaginação e a construção de movimentos coletivos.
O coreógrafo reforça que não pretende uma linguagem fixa. Para ele, o processo criativo é mais importante que o resultado final, e a obra surge da colaboração entre os intérpretes, que funcionam como monólogos que se unem numa “cola” criativa comum.
Papadopoulos também aponta que as dinâmicas de ensaio refletem a vida de cada participante. O resultado é uma experiência coletiva que procura revelar como a cooperação pode enfrentar os desafi os do tempo presente, mantendo a humanidade no centro da prática artística.
Num tom de referência, o artista cita o poema Ítaca de Kaváfis como metáfora para a busca contínua, destacando a importância da jornada partilhada. O trabalho encontra força na cooperação entre artistas, bailarinos e público, em vez de um espetáculo isolado.
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