- Um estudo publicado na Scientific Reports analisa quatro caminhos para Veneza enfrentar a subida do nível do mar nos próximos 300 anos: manter a lagoa aberta com barreiras móveis, construir diques circulares, fechar a lagoa com barreiras permanentes ou relocalizar a cidade.
- O MoSE mostrou proteção até now, mas a eficácia diminui com o aumento do nível do mar; encerramentos mais frequentes afetam a navegação, o porto e os ecossistemas lagunares, com risco de falhas técnicas.
- Diques circulares isolariam o centro histórico e ilhas da lagoa, preservando monumentos e atividade económica, mas alterariam a paisagem e exigiriam gestão permanente de água; há risco de inundação rápida em caso de falha.
- Fechar a lagoa com barreiras permanentes protegeria a cidade e manteria a ocupação, mas causaria a perda irreversível do ecossistema lagunar.
- Relocalizar a cidade é a opção mais exigente; custos estimados incluem diques entre 500 milhões e 4,5 mil milhões, encerramento da lagoa acima de 30 mil milhões e, em cenário extremo, relocalização até 100 mil milhões; adiar decisões reduz as opções disponíveis.
Veneza enfrenta escolhas difíceis para enfrentar a subida do nível do mar ao longo das próximas décadas. Um estudo publicado na Scientific Reports analisa, pela primeira vez de modo sistemático, quatro caminhos de adaptação para a cidade e para a lagoa adjacente nos próximos 300 anos.
O trabalho, liderado pelo climatólogo Piero Lionello, compara manter a lagoa aberta com barreiras móveis, erguer diques circulares, selar a lagoa com barreiras permanentes ou relocar a cidade. Cada opção preserva alguns valores e compromete outros, num contexto de crise climática.
O MoSE, sistema de barreiras móveis utilizado desde 2022, já mostrou capacidade de proteção, mas a eficácia tende a diminuir com o aumento do nível do mar e com encerramentos mais frequentes, o que pode afetar a navegação, o porto e os ecossistemas lagunares.
Dúvidas sobre eficácia a longo prazo
Projetando com base no IPCC, o estudo sustenta que as barreiras móveis dificilmente serão eficazes para aumentos do nível do mar acima de 1,25 metros até 2300, mesmo com medidas adicionais. Em cenários de emissões altas, aumentos superiores a meio metro podem ocorrer já antes de 2100.
Diques circulares: prós e contrapesos
Entre as opções, destacam-se diques circulares que isolariam o centro histórico da lagoa, mantendo água aberta ao mar. Esta solução protegeria monumentos e atividades económicas, mas mudaria a paisagem e a ligação entre a cidade e a lagoa, exigindo reorganização total do funcionamento urbano.
Fechar a lagoa ou relocalizar
Fechar a lagoa com barreiras permanentes preservaria a cidade em termos de construção, porém comprometeria o ecossistema lagunar. O encerramento interromperia a circulação natural de água, com alterações de temperatura e salinidade e uma gestão artificial da água.
Relocalizar a cidade surge como opção extrema, envolvendo desmontar monumentos selecionados e abandonar a cidade atual. A equipa ressalva que não é apenas um problema técnico do MoSE, mas uma mudança profunda de Veneza, que envolveria perdas culturais, sociais e económicas.
Custos e passos futuros
O estudo não aponta uma solução única, mas indica que adiar decisões reduz opções e aumenta perdas. Estima-se que o MoSE custou cerca de 6 mil milhões de euros, enquanto diques circulares poderiam custar entre 500 milhões e 4,5 mil milhões, o encerramento da lagoa acima de 30 mil milhões e a relocalização até 100 mil milhões de euros.
O artigo destaca que a adaptação não é apenas sobre custo, mas sobre o que cada caminho permite salvar em termos de património, memória e identidade associada à lagoa. Veneza serve de exemplo a outras cidades costeiras com dilemas semelhantes.
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