- Um estudo com mais de duas mil espécies de insectos no Quénia e no Peru indica que muitos já vivem perto dos seus limites térmicos e poderão ter dificuldade em sobreviver a um aquecimento adicional.
- O grupo mais vulnerável são as moscas; a perda de espécies tropicais pode afetar ecossistemas, a agricultura e o bem-estar humano.
- Os investigadores utilizaram montanhas como “laboratórios naturais” para medir o máximo térmico crítico e as margens de segurança térmica de várias espécies.
- A conclusão é que, em altitudes elevadas, os insectos têm maior margem de segurança; em planície, as espécies estão mais próximas dos seus limites e respondem menos a calor adicional.
- Projeções até 2100 indicam que o calor extremo pode matar rapidamente, reduzir a reprodução e causar quedas populacionais, tornando crucial manter habitats e corredores climáticos.
Os insectos representam até 90% de todas as espécies animais, concentrando-se sobretudo nas zonas tropicais. Um estudo internacional medeua a forma como o calor afeta comunidades inteiras de insetos, incluindo moscas, abelhas, besouros e gafanhotos, em Kenya e Peru.
A equipa investigou como diferentes grupos respondem ao aquecimento, avaliando a tolerância ao calor de milhares de indivíduos ao longo de gradientes de altitude, desde planícies quentes até zonas de montanha. A abordagem abrangeu várias espécies para evitar dados inconclusivos de uma única espécie.
Os pesquisadores utilizaram montanhas como laboratórios naturais, recolhendo insetos manualmente entre Watamu e o Monte Quénia, e entre a Amazónia e os Andes, perto de Cusco. Mediram o máximo térmico crítico de cada espécime ao aumentar gradualmente a temperatura até ocorrer coma térmico.
Resultados-chave
A análise mostra que muitos insetos de planície já vivem próximo dos seus limites térmicos. Por outro lado, espécies de altitude mais elevada apresentam margens de segurança maiores, sugerindo alguma capacidade de adaptação a calor adicional.
Observou-se que algumas espécies podem aumentar temporariamente a tolerância ao calor por respostas fisiológicas de curto prazo, como proteínas de choque térmico, mas essa capacidade é limitada nos insetos de baixas altitude. Modelos de aprendizagem profunda associaram estabilidade proteica a maior tolerância.
Os dados indicam que grupos com proteínas mais estáveis ao calor tendem a suportar temperaturas mais altas. Moscas mostram menor tolerância e proteínas menos estáveis, enquanto gafanhotos apresentam maior tolerância e proteínas mais estáveis.
Implicações do aquecimento
Projecções até 2100, comparadas com limites térmicos de planícies, sugerem que o calor extremo pode provocar mortes rápidas, mas até mesmo stress moderado reduz reprodução e populações. Refúgios micro-habitats, como vegetação sombreada, tornam-se vitais para alguns grupos.
A manutenção de corredores climáticos entre áreas mais frescas e quentes pode facilitar deslocamentos de espécies. A perda de habitats e a fragmentação reduzem as opções de micro-refúgios, aumentando o risco de declínio populacional.
Relevância ecológica
As zonas tropicais concentram a maior diversidade de vida insectívora, com impactos que vão da polinização à decomposição de resíduos. A redução de insetos tropicais pode afetar ecossistemas, agricultura e bem-estar humano, conforme as redes tróficas entram em desequilíbrio.
O estudo reforça a necessidade de ações para limitar o aquecimento global e proteger habitats que ofereçam refúgios térmicos. A pesquisa é apresentada pela equipe em parceria com outras instituições, e tem como foco compreender não apenas uma espécie, mas comunidades inteiras de insetos.
Exclusivo Azul / The Conversation
- Este texto reescreve o conteúdo original, mantendo o foco em dados verificáveis e sem opiniões.
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