- O antropólogo Jason Hickel defende que a crise climática mostra os limites do capitalismo e que, sem democratizar a produção e limitar o poder das elites, não haverá resposta eficaz para o aquecimento global.
- Para Hickel, o decrescimento é necessário para reorientar a produção e distribuição de recursos, com foco em necessidades humanas e ambientais, e não apenas no crescimento económico.
- A visão dele sustenta que o Norte tem explorado o Sul há cinco séculos, e que intervenções ocidentais visam manter esse fluxo, com a China surgindo como exemplo de desenvolvimento soberano que desafia o sistema imperial.
- Defende democracia económica e a existência de uma garantia pública de emprego para compensar a transição, atacando a ideia de que a produção pode ser gerida apenas pelo lucro privado.
- Questiona o papel de governos e instituições internacionais, critica as regras da União Europeia e do euro, e afirma que o decrescimento só é viável numa transformação eco-socialista que democratize a produção.
Jason Hickel, antropólogo britânico, defende que a crise climática expõe os limites do capitalismo. Em Barcelona, onde leciona, apresenta uma perspetiva de decrescimento como resposta à desigualdade mundial. O debate aborda produção, riqueza e poder económico.
Nascido em Essuatíni, Hickel descreve a periferia da economia mundial como palco das contradições entre abundância de riqueza e pobreza extrema. A sua visão propõe democratizar a produção e limitar o domínio das elites económicas para enfrentar o aquecimento global.
No centro da discussão está a ideia de decrescimento, defendida nos livros Less Is More e The Divide. Hickel sustenta que o crescimento económico ilimitado falha em resposta à crise ecológica e que é necessária uma reorientação da produção.
Decrescimento e academia
O antropólogo aponta que o decrescimento continua marginal na academia ocidental por ser anti-capitalista. A economia dominante favorece o capitalismo, o que empurra propostas críticas para a margem, afirma.
Apesar disso, Hickel nota mudanças: com a crise climática, surgem mais apoios ao decrescimento entre científicos, em contraste com o consagrado crescimento verde. O debate ganha dimensão na comunidade académica.
A relação Norte-Sul
Em The Divide, Hickel afirma que o Sul não beneficiou com a ajuda do Norte; é o Norte que depende do Sul. A acumulação de capital centrou-se na exploração de mão-de-obra barata e recursos periféricos, sustenta.
O relatório de políticas externas mostra que sanções, golpes e interferência em eleições têm sido usados para manter o controlo sobre recursos. O objetivo é impedir o avanço soberano da produção sul-global.
Democracia económica
O que Hickel propõe é democratizar a produção e alinhar o investimento com necessidades sociais. Questiona a ideia de democracia plena apenas na política, defendendo participação dos trabalhadores na gestão das empresas.
A China é apresentada como exemplo de democracia económica: mercado com forte controlo estatal, planos industriais e203 desenvolvimento de renováveis. Segundo o autor, esse modelo demonstra que democratizar pode ser viável.
O papel da China e a energia
Apesar de uma economia mista, a China destaca-se pela política industrial que orienta o investimento. Hickel atribui sucesso às políticas públicas que promovem renováveis, contrariando a lógica do lucro imediato.
A ascensão chinesa altera a hegemonia global e pressiona o modelo ocidental. Hickel afirma que a resposta ocidental passa por reformas democráticas profundas na produção e no investimento.
EUA, Europa e soberania
O debate aborda o papel dos EUA na Europa, incluindo a intervenção em movimentos socialistas no passado. Hickel sustenta que a Europa foi moldada para evitar políticas socialistas que desafiem o capital.
Quanto à moeda comum, sugere-se que a soberania monetária seria mais viável com reformas profundas em Bruxelas. Sem isso, a adesão ao euro limita políticas sociais e ecológicas.
Impostos e redistribuição
Quanto a propostas de taxar os ricos, Hickel reforça que medidas fiscais progressivas são úteis para cumprir metas climáticas. Estudos citados indicam consumo desproporcionado de carbono pelos milionários.
No entanto, o objetivo do decrescimento não é apenas a tributação. A ideia central é democratizar a produção para alinhar com necessidades humanas e ecológicas, incluindo emprego público garantido.
IA, energia e futuro
A expansão da inteligência artificial é criticada pela concentração de poder em poucas mãos. Hickel alerta para o consumo de energia associado e para o risco de atrasar metas climáticas sem controlo público.
A conclusão evita simplificações: o decrescimento só é viável com uma transformação eco-socialista que democratize a produção e replante o papel do Estado na economia. O foco permanece na produção orientada pelo interesse público.
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