- Desalojados vivem numa cidade temporária junto à orla de Beyal, em Beirute, criada sem planeamento ou serviços e com condições precárias.
- Milhares de pessoas deslocadas fugiram de cidades do sul e arredores por conta dos ataques e do conflito entre Hezbollah e Israel, concentrando-se em tendas ao longo do cais.
- Falta água potável, saneamento e higiene; há receios de surtos de doenças como sarna e piolhos entre crianças.
- Os habitantes apontam para a ausência do Estado, destacando que a ajuda vem sobretudo de iniciativas comunitárias e de assistência não oficial.
- O regresso continua sem data: as semanas que passam mudaram o foco para educação, emprego e sobrevivência, com difícil perspetiva de retorno devido à destruição.
Ao longo da orla de Beyal, em Beirute, surge uma comunidade improvisada que não consta nos mapas. Trata-se de uma cidade temporária formada por tendas, tecidos e cobertores úmidos, junto ao pavimento, diante de um mar que já não é atração turística e que testemunha uma das maiores deslocações forçadas no Líbano.
As noites são marcadas pela linha de defesa instável das tendas, protegidas por tecidos coloridos fixados com pedras e cordas. Milhares de deslocados vivem sem planeamento, sem serviços e sem certezas sobre o que virá a seguir, impulsionados pelos confrontos entre militantes e ataques aéreos que atingiram várias regiões fronteiriças.
A presença de civis é constante, com famílias amontoadas em espaços estreitos e cozinhas improvisadas ao ar livre. O medo de doenças cresce face à água potável escassa, ao saneamento precário e à humidade permanente que já começa a provocar receios de sarna entre crianças.
Mohammed Daghman, deslocado de Nabatiyeh, afirma que o Estado parece ausente, apesar de existir. Diz que as autoridades ouvem, mas tapam os ouvidos, e que a população merece atenção face ao sofrimento. Grande parte do apoio surge de iniciativas comunitárias, não oficiais.
Mahdi Omar, vindo dos subúrbios do sul, descreve a saída da casa como rápida e caótica. Expõe que as necessidades vão além de comida e abrigo, incluindo higiene, água potável e instalações sanitárias, com o receio de propagação de doenças entre as crianças.
Mustafa Atoui, de Siddiqin, sublinha que a ajuda está a ser organizada pela comunidade, independentemente de filiação. Acrescenta que muitos deslocados não conseguiram levar pertences devido à pressa, e que os abrigos continuam cheios.
À medida que as semanas passam, a deslocação transforma-se num modo de vida temporário. O regresso não tem data definida, devido à destruição de casas, aldeias e infraestruturas, o que complica a ideia de retorno mesmo com a cessação dos ataques.
Ao fim do dia, o cais de Beyal permanece como espaço de vida, onde muitos aguardam o fim da guerra, planeiam educar os filhos ou buscar formas de subsistência. O horizonte continua a pairar entre a esperança de regresso e a realidade de uma espera prolongada.
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