- Milhares de soldados e civis ucranianos estiveram sujeitos a violência física e psicológica em prisões na Rússia e em territórios ocupados, segundo a AFP e organizações de direitos humanos.
- Pelo menos 143 ucranianos, incluindo seis civis, morreram em prisões russas nos últimos quatro anos, e mais de 15 mil civis teriam sido detidos ilegalmente.
- Em fevereiro de 2024, cerca de sete mil prisioneiros de guerra permaneciam detidos, conforme o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
- Relatos descrevem torturas diversas, incluindo violação, enforcamentos simulados e choques elétricos, muitas vezes com a participação de médicos e prisioneiros comuns.
- A alimentação desumana, punições constantes e isolamento reforçam o tratamento desumano, com testemunhos de prisioneiros a apontar condições degradantes e violência generalizada.
Nos centros de detenção russos e em territórios ucranianos ocupados, milhares de soldados e civis ucranianos sofreram violência física e psicológica. Segundo testemunhos recolhidos pela AFP e por organizações não governamentais, o Ministério Público ucraniano contabiliza pelo menos 143 ucranianos mortos em prisões russas nos últimos quatro anos. Entre as vítimas, há seis civis. A violência contra prisioneiros é antiga, mas registou aumentos após a invasão de fevereiro de 2022. Em comunicado, Kiev sustenta que mais de 15 mil civis foram detidos ilegalmente, com cerca de sete mil ainda em cativeiro de guerra em fevereiro deste ano, conforme declaração do presidente Volodymyr Zelensky.
Um ex-integrante das forças especiais russas descreveu, sob anonimato, que recebeu ordem de agir com plena liberdade para usar a força contra prisioneiros de guerra. O relato indica que o chefe da equipa afirmou que as regras não seriam aplicadas no tratamento dos detidos e que ninguém seria responsabilizado. O ex-membro, que acabou por se demitir, afirma não ter conseguido manter a participação em tais ações. Muitos colegas, porém, teriam visto nas ações violências como oportunidade.
Em Mariupol, o fuzileiro naval Yaroslav Rumyantsev foi capturado em maio de 2022, após a rendição de tropas na fábrica Azovstal. Transferido com cerca de 250 prisioneiros para Taganrog, no sudoeste da Rússia, chegou a um centro de detenção com fama de tortura. De olhos vendados e amarrados, foi recebido por um grupo que o espancou com bastões. A violência continuou ao longo do tempo, relatam os prisioneiros.
As condições de tortura incluíam violações sexuais, enforcamentos simulados e choques elétricos, inclusive em zonas sensíveis. Estes relatos constam de um relatório da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, com base em testemunhos de ex-prisioneiros ucranianos. Prisioneiros comuns eram encorajados a participar na violência para obter informações militares ou confissões.
Abundância de privações alimentares e castigos
Os métodos de desumanização também incidiam na alimentação. Rumyantsev conta que, em algumas alturas, recebia duas minutos para comer, sob o risco de mais agressões. Um ex-prisioneiro relatou à Human Rights Watch que consumiu baratas pela fome, enquanto outros chegaram a comer ratos crus. Observou-se punições constantes e regras que forçavam à submissão, incluindo a proibição de olhar para os guardas.
Relatos de médicos prisionais mencionam o uso de tubos de polipropileno para espancar prisioneiros, com alguns pacientes obrigados a agradecer aos autores pelo tratamento recebido. Em investigações da AFP e da Radio Free Europe/Radio Liberty, médicos teriam gravado mensagens de apoio ao Estado russo após intervenções cirúrgicas.
Invisibilidade e documentação de abusos
Vladimir Osechkin, ativista de direitos humanos radicado na França, explicou à AFP que os detidos ucranianos são muitas vezes tornados invisíveis no sistema penal, com casos de nomes alterados ou prisões sem testemunhas. Segundo a ONG Gulagu.net, o aparato repressivo é dominado pelo Serviço Federal de Segurança e pela administração prisional, com a participação de alguns sectores judiciais.
Famílias também sofrem com o isolamento: o filho de uma prisioneira de Donetsk foi detido em 2022 e, apesar de a Cruz Vermelha ter confirmado a detenção, a mãe continua sem notícias sobre o paradeiro ou o estado de saúde do filho, dois anos depois. A família também cita dificuldades em manter contacto com o exterior.
A documentação de abusos é organizada por iniciativas civis, incluindo o projeto Tsyvilni v Poloni, que significa Civis em Cativeiro, e organizações como Numо, Sestry!, criadas pela ex-prisioneira Lyudmila Guseynova. Entre os casos relatados, destaca-se a detenção de uma professora de 62 anos em Melitopol, em 2024, após ter rejeitado colaborar com as autoridades russas, levando a acusações contestadas pela família.
Entre na conversa da comunidade