- O mar do Norte abriga mais de 100 parques eólicos offshore, tornando-se um dos maiores polos do mundo, com estruturas dispersas e cabos entre eles que são alvos potenciais.
- Avistamentos de drones, mapeamento por submarinos e falhas na comunicação de incidentes criam um “ponto cego” na proteção dessas infraestruturas, agravando o risco de sabotagem em energia renovável.
- A defesa é fragmentada entre polícia, forças armadas e entidades administrativas, com pouca cooperação epartilha de dados entre países e entre setor público e privado.
- Na Alemanha, o Centro de Segurança e Proteção Marítima funciona como principal ponto de contacto em caso de incidente, mas admite que o sistema federal complica a coordenação entre autoridades.
- A União Europeia planeia aumentar a capacidade eólica offshore em 15 gigawatts por ano a partir de 2031, visando maior resiliência energética e criação de empregos, exigindo melhor coordenação entre projetos no mar do Norte.
A energia eólica offshore no Mar do Norte enfrenta um conjunto de riscos ligados a atividades híbridas, como avistamentos de drones, sabotagens e monitorização submarina. A jurisdição para proteção destas infraestruturas dispersas envolve autoridades nacionais, setores privados e operadores, sem uma resposta única.
No início de 2026, mais de 100 parques eólicos offshore operavam nas zonas económicas exclusivas da Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Dinamarca e Bélgica. A região concentra-se na baía alemã e junto à costa leste britânica, tornando-se num dos maiores polos do mundo.
A localização remota dos parques, somada à dependência de cabos submarinos, complica a vigilância e aumenta a vulnerabilidade a ataques. A proteção, que depende de múltiplos atores, não está padronizada entre países nem entre setores público e privado.
Desafios de jurisdição e resposta
Em alguns casos, drones sobre infraestrutura energética offshore não geram registo nem comunicação de incidentes, dificultando o desfecho das ocorrências. Responsáveis políticos e de segurança destacam a falta de partilha de dados como entrave à coordenação.
Segundo Albéric Mongrenier, da European Initiative for Energy Security, há aumento e diversificação de ataques em terra e no mar. A vulnerabilidade concentra-se nos cabos de ligação entre parques e as costas, que são áreas especialmente sensíveis.
Daniel Marks, do Royal United Services Institute, aponta que incidentes costumam não ter sequência clara. A comunicação entre polícia, autoridades marítimas e setores privados é, por vezes, insuficiente, o que compromete a recuperação após um ataque.
O debate também envolve operacionalidade. Mark afirma que há casos em que drones são lançados a partir de embarcações da chamada frota-sombra, o que dificulta a identificação de origens e motivações, tornando improvável tratar-se de lazer.
Proteção e experiências nacionais
Na Alemanha, a proteção de parques eólicos offshore continua fragmentada devido ao federalismo. A autoridade marítima alemã desempenha um papel central, mas não assume o controlo exclusivo por razões constitucionais, o que exige cooperação entre vários níveis de governo.
Especialistas sugerem que o setor privado deve conhecer claramente quem é responsável por cada etapa, antes, durante e após um incidente. Países nórdicos, especialmente a Noruega, são apontados como referência em gestão de ameaças híbridas.
Apesar das dificuldades, o Centro de Segurança e Proteção Marítima (MSSC) da Alemanha funciona como ponto de contacto para incidentes, assegurando ações apropriadas. Ainda assim, comparar com a Noruega evidencia que a Alemanha enfrenta desafios estruturais.
Importância estratégica da energia eólica offshore
A energia eólica offshore é vista como pilar de resiliência energética na Europa, especialmente após a guerra na Ucrânia ter exposto dependências. A energia eólica offshore oferece produção estável e previsível, reduzindo a vulnerabilidade a choques externos.
A Declaração de Hamburgo, assinada por nove Estados do Mar do Norte, comprometeu o aumento anual de 15 gigawatts de capacidade offshore a partir de 2031. O acordo prevê criação de milhares de empregos e geração de atividade económica expressiva.
Greve, porta-voz alemão, ressalta que o objetivo de 15 gigawatts deve ser visto como meta europeia, exigindo coordenação mais estreita entre projetos, calendários de leilões e prazos de entrada em serviço para evitar picos de atividade e atrasos.
Perspetivas e próximos passos
A maioria dos parques eólicos offshore situa-se fora de águas territoriais, o que aumenta a complexidade da vigilância. A Alemanha, com quase 9,7 gigawatts de capacidade no final de 2025, planeia multiplicar por sete esse valor até 2045, mantendo a defesa de infraestruturas críticas como prioridade.
Especialistas sublinham que a robustez da energia eólica offshore depende de uma arquitetura de proteção integrada, com responsabilidade clara entre autoridades e setor privado, e de lições retiradas de boas práticas de outros países do mar do Norte.
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