- Iao Hon, Macau, é um dos bairros mais densamente povoados do mundo, com 46 edifícios, 2.566 unidades e 12.014 residentes em 2020, numa densidade superior a 140.000 por quilómetro quadrado.
- Construído nos anos setenta, o bairro mistura comércio de rua—ourivesarias, mercados, cafés e um templo—com fachadas degradadas, bolor, janelas partidas e estruturas a necessitar de reabilitação.
- Muitos moradores são imigrantes da China continental; exemplos: Chiu Mingming, que gere uma banca de artigos religiosos há mais de três décadas, e famílias que cresceram num quarto de cerca de 30 metros quadrados.
- O quotidiano inclui avisos afixados para dissuadir prostituição, relatos de pessoas suspeitas nas imediações e uma concentração de idosos que passam o dia em parques e nos corredores dos edifícios.
- A falta de espaço levou a que proprietários arrendem apartamentos a trabalhadores migrantes (cerca de um terço da população), enquanto muitos moradores descrevem a área como degradada e em necessidade de requalificação.
Um dia em Iao Hon, o bairro de Macau que figura entre os mais povoados do planeta, é marcado pela coexistência entre comércio ativo e condições de habitação precárias. Ratos, manchas de urina, lixo espalhado e cabos emaranhados denunciam problemas estruturais que vão além da vida quotidiana a céu aberto. A presença de avisos sobre prostituição, gaiolas nas janelas e um cenário de calor humano nos passeios contrasta com fachadas degradadas e canalizações a pingar nos edifícios.
Construído nos anos 1970, o Iao Hon tem sete quarteirões, 46 edifícios e 2.566 unidades, maioritariamente residenciais. Em 2020 registou 12.014 habitantes, com densidade que supera 140 mil pessoas por quilómetro quadrado, tornando-o uma das áreas mais densamente povoadas do território.
O que acontece no dia a dia
Chiu Mingming, 57 anos, vive há décadas no bairro e gere uma banca de artigos religiosos num mercado ao ar livre. Embora resida hoje perto do Iao Hon, continua ligado ao comércio que mantém há mais de 30 anos. Os pais dele chegaram de China continental para Macau, trabalhando na limpeza de fábricas e entre os quarteirões do bairro.
O relato de quem cresceu ali revela uma luta antiga por espaço. Antes da urbanização, o terreno era hipódromo; na década de 1970 surgiram quintas, fábricas e casas com telhados de zinco. A família de Chiu já ocupava o território antes da construção das atuais estruturas, e lembra tempos de maior dificuldade de acomodação.
Perto de um parque infantil, onde muitos idosos passam as tardes, há avisos colocados pela comunidade para desencorajar atividades de prostituição e comportamentos inadequados. O espaço serve de ponto de encontro de pessoas da terceira idade, que realizam exercícios, conversam e observam aves, entre outras atividades.
À frente de uma banca de cartas no corredor de um restaurante, uma mulher idosa organiza pilhas de cartões. Também ali, muitos residentes manifestam preocupações com a higiene, a desordem e a possível presença de pessoas suspeitas que circulam pela área. A comunidade não sabe ao certo a natureza dessas visitas.
Uma jornalista que cresceu nas imediações, Catarina Chan, recorda os tempos de escola perto do bairro e descreve preocupações passadas com a presença de prostitutas na rua. Hoje, ainda guarda receio de atravessar o local, mas a memória permanece associada ao ambiente de então.
Habitação e vida familiar
Chan Kam Peng, 67 anos, reformada da construção civil, vive só num apartamento partilhado com memórias de família. O marido faleceu há cerca de uma década, e os filhos visitam-nos quando possível. O acesso ao edifício revela um corredor estreito, com iluminação débil e paredes com bolor. O apartamento mostra sinais de desgaste, com uma fissura no teto e mobiliário antigo.
Outra moradora, Chan Wo In, tem 81 anos e é imigrante da China continental. Faz parte de um movimento que reivindica a requalificação do Iao Hon. Além de morar sozinha, recebeu a visita de um jornalista para demonstrar o estado da habitação, incluindo uma casa com piso bolorento e uma disposição simples de utensílios.
A proprietária Leong, com 70 anos, gere a Farmácia Chinesa Iao Kei, instalada no bairro desde os anos 80. Recorda assaltos no passado e mantém cautela em relação a joias que já não usa. Ao seu redor, trabalhadores migrantes formam um terço da população e ocupam parte das casas disponíveis.
Sou Fong, 71 anos, proprietária de uma banca de frutas, comprou um apartamento de um quarto no edifício há anos e vive com poupanças que cobrem as necessidades diárias. Ela descreve a vida no bairro como simples, com a presença constante do sol e visitas aos filhos para refeições.
A realidade habitacional no Iao Hon inclui o arrendamento de casas por trabalhadores migrantes, evidenciando uma dinâmica de ocupação com várias camas num único espaço. Em muitos dias, as ruas parecem vazias de crianças, com o isolamento de uma comunidade que se apoia na presença de idosos ao longo do dia.
A área continua a ser uma fronteira entre a vida comercial vibrante e as condições de habitação que motivam esforços de requalificação por parte de residentes locais, que defendem melhorias urbanas sem alterar a identidade do bairro. Observa-se, assim, uma comunidade que persiste entre memórias de outrora e desafios presentes.
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