- A RSF afirma que oitenta por cento dos meios de comunicação na Hungria estão sob controlo do governo de Viktor Orbán, com a radiodifusão pública transformada em propaganda e meios comprados por oligarcas ligados ao Fidesz.
- Jornalistas de meios independentes dizem que é “muito difícil” obter informações de instituições estatais e que críticos raramente são convidados para conferências de imprensa, enfrentando acusações de serem agentes estrangeiros.
- A organização aponta ainda que o Estado húngaro monitorizou jornalistas com o software Pegasus e que, em campanhas de difamação, há assédio online dirigido a meios críticos.
- Apesar da concentração mediática, há relatos de criação de novos órgãos de imprensa por profissionais que deixaram meios pró-Fidesz; continua a ser possível encontrar notícias independentes.
- Nas eleições legislativas em curso, o opositor Péter Magyar promete restaurar a liberdade de imprensa, mas reconhece que destruir o vasto aparato mediático é um desafio complexo.
Já não há dúvidas sobre o desafio enfrentado por jornalistas na Hungria: a profissão é descrita como “muito difícil” num país onde a maior parte da imprensa está sob influência do governo. A conclusão surge de relatos de profissionais de meios independentes, citados pela agência Lusa.
Péter Magyari, jornalista de investigação do meio online Válasz, afirma que, à partida, a imprensa parece livre, mas que o acesso à informação de instituições estatais é, na prática, restrito. Segundo ele, meios críticos raramente recebem convites para conferências ou respostas oficiais.
O repórter descreve ainda uma “comunicação paranoica” associada ao contexto da guerra na Ucrânia, em que perguntas a meios críticos costumam ficar sem resposta ou ser recebidas com acusações de ligações externas. Esta tendência é associada à estratégia do governo de Viktor Orbán desde 2010.
Mercédesz Gyükeri, do semanário hvg, acrescenta que muitos colegas abandonaram a profissão por razões psicológicas ou económicas. Segundo ela, os órgãos pró-Fidesz recebem mais recursos, o que se traduz em redações mais fortes e maior circulação de informações do Governo.
Contexto mediático e impacto
A RSF aponta que o controlo de 80% dos meios de comunicação no país resulta de uma combinação entre reestruturações da publicidade pública, compra de imprensa por oligarcas ligados ao Fidesz e transformação de muitos órgãos privados em aliados do governo. O efeito é uma maior disseminação de mensagens favoráveis ao executivo.
Apesar disso, a RSF também sublinha que, embora haja pouca violência física contra jornalistas, o Estado é o único membro da UE a ter utilizado software de vigilância Pegasus para monitorizar jornalistas. Atividades de difamação online também são mencionadas como prática comum contra críticos do governo.
Para os jornalistas, o panorama não é uniforme: novos órgãos independentes têm surgido após algumas saídas de redação, ainda que enfrentem dificuldades económicas. A imprensa independente continua a manter posições fortes em setores do mercado, mesmo com a concentração em parte da comunicação pública e de apoio estatal.
O escrutínio das eleições legislativas, marcadas para este domingo, pode trazer mudanças. O opositor Péter Magyar, líder do partido conservador Tisza, promete revisar o quadro mediático, mas reconhece que desfazer o sistema actual será um desafio complexo após anos de consolidação de poder.
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