- O excedente global de vinho entre 2000 e 2023 foi de 717 milhões de hectolitros, equivalente a mais de três anos de consumo mundial.
- O vinho representa hoje 12,5% do consumo mundial, partindo de mais de 30% em 1960, refletindo uma inércia da oferta desde 2018 (consumo -1,75% ao ano; produção -0,3%).
- O mercado está cada vez mais dependente de importadores como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, que Respondem por cerca de 45% do consumo mundial, 66% do volume e 68% do valor do comércio.
- O caso da China mostra queda de consumo de 19,3 para 6,8 milhões de hectolitros entre 2017 e 2023, com o vinho representando apenas cerca de 0,3% do álcool consumido.
- Portugal está entre os países mais expostos à quebra da procura internacional; a França já iniciou a redução de área vitícola para enfrentar o excedente, e projeta-se que o consumo caia até 2030 para cerca de 186,5 milhões de hectolitros, exigindo reposicionamento do setor.
O vinho perdeu peso estrutural no mercado global: a produção tem superado o consumo, gerando um excedente equivalente a três anos de consumo mundial, segundo um estudo do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), de Coimbra. O estudo analisa o período entre 2000 e 2023.
Entre 2000 e 2023, o excedente global atingiu 717 milhões de hectolitros. Este volume é comparável a mais de três anos de consumo mundial à espera de escoamento, segundo a docente Maria Cunha, pesquisadora do ISMT. A investigação abrange 27 países que representam cerca de 86% do consumo mundial.
Hoje, o vinho representa 12,5% do consumo global, uma queda significativa face aos mais de 30% de 1960. O desfasamento resulta da inércia da oferta: desde 2018, o consumo caiu em média 1,75% ao ano, enquanto a produção recuou apenas 0,3%. O setor manteve a produção a ritmos que o mercado não absorveu.
Excedente global e rombos no equilíbrio
O estudo mostra que o mercado foi dividido em produtores autossuficientes e países dependentes de importações, para analisar a evolução entre 2000 e 2023. Os investigadores indicam que há um risco relevante de dependência de um grupo de importadores, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, que juntos respondem por 45% do consumo mundial.
A análise destaca ainda o peso do mercado chinês, que entre 2017 e 2023 reduziu o consumo de 19,3 para 6,8 milhões de hectolitros. No país, o vinho representa apenas cerca de 3% do álcool total consumido, o que dificulta a consolidação de hábitos regulares.
França já começou a responder ao excedente com a redução de cerca de 4% da área vitícola para equilibrar oferta e demanda. Mesmo com ritmos de crescimento anteriores, a China não conseguiu inverter a tendência global de queda de consumo e de importações.
Perspetivas para o futuro e impactos nacionais
Portugal aparece entre os países mais expostos à menor procura internacional. Os produtores autossuficientes respondem por 78% da produção mundial, mas absorvem apenas 40% do consumo global. Os autores preveem continuação da tendência até 2030, com consumo possivelmente a cair para cerca de 186,5 milhões de hectolitros.
O estudo aponta a necessidade de adaptação do setor a um mercado mais seletivo, com maior foco em diferenciação e valor acrescentado. A estratégia de crescer apenas por preço, volume e exportações pode tornar-se insustentável para muitos produtores dependentes do mercado externo.
O relatório, intitulado Wine Import in the Context of Transforming Global Consumption, foi desenvolvido por investigadores do ISMT, da Oles Honchar Dnipro National University e da Odesa Polytechnic National University, na Ucrânia. As conclusões retêm a importância de repensar modelos de produção e comercialização no setor.
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