- António Lobo Antunes revelou ter passado recentemente por um cancro, afirmando que, após a doença, os prémios deixam de ter importância e que escrever continua a ser a prioridade, não a publicação.
- O escritor descreveu como encontrou força nas pessoas que o rodeavam e na dignidade dos pacientes que conheceu durante o tratamento, elogiando a humanidade dos portugueses.
- Contou ter ficado vazio durante dois meses após a operação, mas concluiu o livro e planeia iniciar outro em fevereiro; admitiu que escrever é extenuante, mas que as suas análises estão mais fortes.
- Criticou a exposição mediática após sair do hospital, dizendo que as fotografias a vender às revistas são desagradáveis; mantém a rotina de trabalho, apesar de não ter deixado de fumar.
- Sobre o panorama editorial, manteve reservas sobre a Dom Quixote e o atual rumo de grupos editoriais, defendendo preferir editoras pequenas e destacando a importância de garantir um editor de confiança para continuar a publicar.
Após anunciar que enfrentou uma doença grave, António Lobo Antunes assegura que os prémios perderam importância. O escritor fala em reconhecer a finitude e em como a saúde alterou a sua perspetiva sobre a carreira.
O autor descreve o impacto da doença como uma violência vivida, sublinhando a sorte na recuperação. Explica que encontrou força nas pessoas que o acompanhavam e na coragem de quem enfrenta tratamentos, destacando a dignidade observada entre pacientes.
Relata meses de recuperação em que ficou quase imóvel, sem conseguir realizar tarefas. Confirma que acabou o seu livro durante este período e que contempla iniciar uma nova obra, embora sem certezas.
O escritor comenta a relação entre a fama e a vida privada, revelando que a exposição mediática o incomodou após o tratamento. Conta ainda que já foi fotografado sem consentimento, o que o deixou revoltado.
Mantém o ritmo de trabalho habitual, mesmo após o cancro, admitindo que deve ter reduzido o fumo mas não interrompido por completo. Avalia ainda o desgaste próprio da escrita, lembrando que a produção atual exige menos páginas por dia.
Sobre a relação com o público português, Lobo Antunes afirma sentir uma ligação cada vez mais forte com os leitores, destacando a generosidade que tem encontrado.
No terreno editorial, questiona a identidade da Dom Quixote e a orientação da editora, apontando uma política irregular e a ausência de um director claro. Expõe dúvidas sobre garantias editoriais para continuar a colaborar.
Descreve o desejo de manter a relação com editoras de confiança, referindo preferência por garantias editoriais estáveis. Atribui ao grupo editorial de grandes nomes a tendência de concentração e à necessidade de profesionalismo na gestão da cultura.
O escritor afasta a ideia de abandonar a editora nacional de momento, citando um contrato de dez anos com a Dom Quixote, mas admite considerar outras possibilidades caso não haja alinhamento profissional.
Sobre o papel de grandes conglomerados, aponta que os grandes grupos priorizam o impacto económico, com dependência de marketing e visibilidade, enquanto destaca a relevância das editoras pequenas para obras mais diversas.
Lobo Antunes comenta o fenómeno de venda de livros associado à visibilidade pública de autores, afirmando não se incomodar com números altos se sustentarem a leitura de obras relevantes, desde que não se generalize a ideia de que toda a divulgação corresponde a leitura de Tolstói ou Dostoievski.
Quanto à sua recente colecção de clássicos em bolso, diz que é um projeto antigo, com o objetivo de facilitar o acesso a obras em domínio público, através de traduções de qualidade, sem interesse financeiro pessoal. Revela, no entanto, críticas às escolhas de capa e ao material de divulgação.
Afirmando que a sua ambição é que as pessoas leiam bons livros, admite que algumas escolhas editoriais podem não agradar a todos. Enaltece a qualidade de tradutores portugueses e reconhece a importância de projetos que promovam a leitura de clássicos.
Entre na conversa da comunidade