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João Abel Manta, o artista que foi além do cartoon político

João Abel Manta, mestre das artes gráficas, influenciou a crítica política e impulsionou a criação de um acervo museológico que abrange cartoon, desenho e pintura

João Abel Manta
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  • Morreu aos 98 anos o artista plástico João Abel Manta, reconhecido pelo cartoon político e por um percurso multidisciplinar no artesanato visual.
  • Filho de pintores, nasceu em Lisboa e viveu a infância em Santo Amaro de Oeiras; foi detido pela Polícia de Intervenção Social (PIDE) a 1 de fevereiro de 1948, por causa de atividades políticas.
  • Destacou-se como cartoonista a partir do final dos anos sessenta, colaborando com o Diário de Lisboa e o Diário de Notícias e lançando obras como os cartazes de 1975 “MFA, POVO” e “Um problema difícil”; publicou também o livro Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, em 1978.
  • Mantendo um olhar crítico, manteve a prática de artes gráficas e várias expressões artísticas, incluindo pintura, tapeçaria, gravura, azulejo e cenografia, evitando a especialização exclusiva na ilustração.
  • A exposição “João Abel Manta — Livre” abriu em abril de 2024, em Algés, apresentando parte do arquivo; a neta Mariana Manta Aires está à frente da inventariação, com o objetivo de valorizar a obra e considerar um espaço museológico próprio.

João Abel Manta faleceu nesta sexta-feira aos 98 anos, vítima de causas não especificadas. Artista multifacetado, destacou-se como cartoonista político e como pintor, gravador e designer gráfico, mantendo um olhar crítico sobre o poder e a sociedade ao longo de várias décadas.

Nascido em Lisboa, em janeiro de 1928, filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina de Moura, cresceu num ambiente que incentivou a liberdade de expressão. A infância decorreu em Santo Amaro de Oeiras, onde conviveu com refugiados alemães e ficou informado sobre a situação na Alemanha nazista.

Formou-se em Arquitetura, mas cedo enfrentou a censura do Estado Novo. Em 1947 colaborou com a Exposição Geral de Artes Plásticas e publicou o primeiro desenho de imprensa na Seara Nova, assinando como João Abel. Em fevereiro de 1948 foi detido pela PIDE e passou duas semanas na prisão de Caxias.

Trajetória e impacto

Alguns desenhos criados na prisão foram exibidos em 2024 numa exposição em Algés, onde também se apresentou a ficha de prisioneiro que o acusava de integrar o MUD Juvenil e de distribuição de material subversivo. A obra dele espalhou-se por várias áreas além do cartoon.

Como arquiteto, assinou projetos de escolas e blocos de habitação em Lisboa, mas acabou por priorizar as artes gráficas. Em entrevista de 2010, citada em documentário de 2024, destacou o papel da criação individual na sua prática artística.

A partir dos anos 1960, Manta consolidou-se como cartoonista e caricaturista, trabalhando em publicações como Diário de Lisboa, Diário de Notícias e, depois da Revolução, em O Jornal. A sua linguagem distintiva combinava contorno negro espesso e símbolos sobre justiça social, política e condições de vida.

Legado editorial e exposição

Entre as obras mais reconhecidas destacam-se o cartaz MFA, Povo (1975) e o desenho Um problema difícil (1975), que recortam figuras nacionais e internacionais para criticar regimes e ideologias. Em 1978 publicou Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, considerada a sua obra editorial mais relevante.

Após a morte do pai, em 1982, afastou-se do cartoon e voltou-se à pintura, retornando às artes gráficas apenas em 1992 com uma retrospetiva no Museu Bordalo Pinheiro. O conjunto da obra inclui tapeçaria, azulejo, escultura e cenografia para teatro, demonstrando versatilidade.

A exposição João Abel Manta — Livre, inaugurada em 2024 no Palácio Anjos, em Algés, reuniu parte do arquivo do artista. A família mantém grande parte do acervo em Lisboa, com a neta Mariana Manta Aires a coordenar a inventariação para futuras iniciativas museológicas.

Mantém-se a curiosidade e o arquivo

Mariana Manta Aires referiu à Lusa que o objetivo é tornar o trabalho de Manta acessível ao público, com eventual criação de um espaço museológico próprio. O processo de catalogação continua a revelar desenhos e documentos guardados ao longo de décadas.

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