- As chamadas “novelas de fruta” criadas com inteligência artificial tornaram-se um fenómeno viral no TikTok, com episódios curtos que retratam conflitos entre frutas.
- Um exemplo mostra uma banana com traços musculados a humilhar um pêssego, refletindo padrões de gordofobia e quase sempre com a personagem feminina em posição de vítima.
- Psicóloga Ana Fraga Silva alerta que conteúdos assim podem ativar emoções rápidas e favorecer uma exposição repetida a dinâmicas relacionais pouco saudáveis, mesmo em caricaturas.
- Em Portugal, entrou em vigor, a 12 de fevereiro, uma lei que restringe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais, exigindo autorização parental; nos últimos meses a Europa viu terminar um regime de combate a abuso sexual infantil online, aumentando a exposição de crianças a conteúdos sensíveis.
- A especialista defende que os pais devem acompanhar e conversar com as crianças, ajudar a distinguir ficção da realidade, promover relações saudáveis e desenvolver pensamento crítico, em vez de apenas proibir.
Ana Fraga Silva, psicóloga clínica, analisa o fenómeno das chamadas novelas de fruta criadas por inteligência artificial. As narrativas curtas de conflito e humor conquistam utilizadores na TikTok, muitas vezes entre crianças e jovens. Os conteúdos podem influenciar perceções de relações e afetar emoções.
As histórias exibem ciúmes, traições e relações tóxicas, apresentadas com personagens de fruta em tom caricatural. Em alguns vídeos, uma banana faz críticas a um pêssego, zombando de ser visto como gordo. O conteúdo tem elevado número de gostos e partilhas, refletindo uma tendência preocupante para a perceção de normas sociais.
A popularidade resulta do alcance e do algoritmo que alimenta a visibilidade. O consumo contínuo reforça motivos de curiosidade, competição e resolução de conflitos em formatos breves, que prendem a atenção rapidamente.
Impacto emocional e social
Alguns vídeos provocam contemplação sobre dinâmicas relacionais, mesmo quando apresentados de forma simples. A curiosidade pelo drama estimula respostas emocionais imediatas, conforme aponta a psicóloga. A repetição pode traduzir-se em exposição a padrões não saudáveis.
Apesar de serem desenhos, as personagens mantêm traços de relacionamento que podem ser assimilados. A perceção de que certos comportamentos são inofensivos pode aumentar com o tom humorístico e a leveza aparente.
A economia de atenção explica a atração por conteúdos rápidos. Narrativas curtas permitem acompanhar conflitos sem exigir compromisso temporal, o que facilita o consumo contínuo e repetido.
Efeitos na perceção de relações
Quando a manipulação e a traição aparecem com frequência, sem consequências claras, o risco de normalização de comportamentos tóxicos aumenta, segundo a especialista. A exposição prolongada pode induzir ansiedade e padrões emocionais intensos, especialmente em quem assiste habitualmente.
Em Portugal, um projeto de lei aprovado em fevereiro restringe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais sem autorização parental. Antes dos 13 anos, o acesso é proibido. A nível europeu, um regime temporário para combater conteúdos de abuso sexual infantil deixou de vigorar sem acordo entre instituições, aumentando a exposição de menores a conteúdos sensíveis.
Orientação parental e estratégias
A especialista aponta que a resposta não deve passar apenas pela proibição. O acompanhamento próximo é essencial, com conversas sobre o conteúdo visto. Questionar o que a criança entendeu, distinguir ficção da realidade e reforçar referencial de relações saudáveis são estratégias recomendadas.
É importante reforçar comportamentos positivos e explicar que o conteúdo é ficção. Demonstrar limites saudáveis nas relações e fomentar o pensamento crítico ajudam a criança a interpretar histórias de forma adequada. O objetivo é transformar o conteúdo em oportunidade de aprendizagem.
Ana Fraga Silva encerra com a ideia de que a escola e a família devem colaborar para que as crianças desenvolvam discernimento e referências seguras, com foco em relações respeitosas.
Entre na conversa da comunidade