- O ribeiro do Vascão, afluente do Guadiana com 102 quilómetros, é o rio português mais longo sem barragens e está classificado pela Ramsar desde 2012.
- O programa Pro-Rios 2030 prevê restauro de 60 quilómetros de água, remoção de barreiras e recuperação das margens para transformar o Vascão no santuário do saramugo.
- O saramugo é uma espécie muito ameaçada, cuja população tem vindo a diminuir na bacia do Guadiana; o Vascão concentra várias espécies piscícolas representativas da região.
- Há debate local sobre o equilíbrio entre conservação do património, como moinhos e açudes, e a necessidade de remover obstáculos para permitir a subida dos peixes.
- Além disso, persistem preocupações ambientais ligadas ao Aterro Sanitário do Sotavento Algarvio, com receios de impactos na qualidade das águas da ribeira.
A ribeira do Vascão, afluente do Guadiana com 102 km, faz fronteira entre Alentejo e Algarve. É o mais longo curso de água em Portugal sem barragens e abriga uma das melhores populações de saramugo na bacia hidrográfica do Guadiana.
AVALIAÇÕES oficiais associam a sua biodiversidade à maior intervenção de restauro fluvial já realizada em Portugal, no âmbito do Pro-Rios 2030. O foco está em 60 km de linha de água para remover obstáculos, recuperar margens e gerenciar espécies não autóctones.
José Pimenta Machado, da APA, aponta que o Vascão deverá ser transformado num santuário do saramugo, num contexto de queda acentuada da espécie na Península Ibérica. Diversas espécies piscícolas significativas também existem no trajeto.
Património molineiro
A WWF Portugal aponta fatores de degradação associados aos moinhos e aos açudes ao longo do Vascão. No passado, o uso agrícola intensificou a ocupação ribeirinha e a construção de estruturas para irrigação alterou o caudal e as passagens históricas de água.
Para a ADPM, a protecção do saramugo não pode ignorar interesses locais. Existem passagens viárias e pontes que, segundo a instituição, criaram novas barreiras à circulação da água, ainda que muitos moinhos estejam já a ser classificados como património.
José Pimenta Machado assegura que o projecto não elimina o património dos moinhos. O objectivo é manter o Vascão em estado prístino, com os engenhos hidráulicos preservados ao longo de Mértola, Almodôvar e Alcoutim.
O pequeno saramugo
O saramugo, com três a quatro anos de vida e pouco mais de 7 cm, é hoje classificado como criticamente em perigo. A espécie está restrita a troços médios e inferiores do Guadiana e a uma pequena extensão no Guadalquivir, em Espanha.
O ICNF sublinha que o saramugo é espécie bandeira para a conservação dos ecossistemas ribateiros do Guadiana. Desde 2010 têm sido implementadas ações para melhorar as condições da espécie, que encolheu ao longo das últimas décadas.
Entre 1997 e 2020, diferentes projectos mostraram queda significativa de populações, com avaliações indicando redução de até 80% noutros afluentes. Em 2014-2017 verificou-se nova diminuição no Vascão.
Fragmentação e declínio
Em 2023, o Mare detectou vestígios genéticos de cinco populações que tinham desaparecido, sugerindo que a espécie pode resistir noutros habitats. De lá para cá, o saramugo reduziu substancialmente a sua distribuição na região.
Relatórios históricos apontam para alterações induzidas pelo homem como principais ameaças, incluindo introdução de espécies não autóctones, que competem e predam o saramugo durante várias fases da vida.
Saúde das populações
À montante do Vascão, o Aterro Sanitário do Sotavento Algarvio é apontado como risco à qualidade da água. Comunidades locais temem impactos ambientais e para a segurança pública, com registos de incidentes passados.
A APA assegura que não haverá descargas poluentes no rio. O contrôle de poluição permanece como prioridade, contando com a participação da população ribeirinha para proteger o Vascão.
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