- A investigadora francesa Lauriane Mouysset defende que a economia é apenas uma ferramenta e que a crise da biodiversidade exige articular economia, ecologia e filosofia, ligando o “como” ao “porquê” das decisões políticas.
- Ela acredita que a biodiversidade requer uma abordagem holística e que tudo deve ser colocado em diálogo para evitar ângulos mortos em cada disciplina.
- Mouysset aponta que a ecologia explica impactos humanos nos ecossistemas, enquanto as ciências sociais (incluindo economia) ajudam a entender por que tais comportamentos ocorrem e quais as consequências, incluindo o efeito nas próprias zonas ecológicas.
- Defende combinar economia e ética ambiental para ir além do valor instrumental e considerar o valor intrínseco dos seres vivos, bem como a necessidade de uma educação cívica e instituições participativas para debates mais justos.
- Ao falar de mercados, afirma que a economia pode tornar visíveis certas trocas, mas que o modelo bioeconómico não substitui a reflexão sobre valores; e acrescenta que, ao contrário do mercado de carbono, a biodiversidade tende a operar em escalas mais locais e menos previsíveis.
Lauriane Mouysset, investigadora francesa, defende que a crise da biodiversidade exige articular ecologia, economia e filosofia. Em Portugal a 28 de Março recebeu o Prémio Internacional Terras sem Sombra, na categoria Biodiversidade, em Santiago do Cacém, Alentejo.
A interlocutora, diretora do CNRS, afirma que a economia é um instrumento, nem má nem mágica. Para enfrentar a crise ecológica, é preciso ligá-la a uma ferramenta moral que vá além do valor instrumental.
A sua visão orienta-se pela interseção entre economia, ecologia e ética ambiental. Sem diálogo entre estas áreas, afirma, há ângulos mortos que comprometem a compreensão da crise holística da biodiversidade.
Como funciona na prática? A ecologia analisa impactos humanos nos ecossistemas, mas não explica porquê dos comportamentos. É necessária a ciência social para entender decisões e consequências ambientais.
Já a filosofia questiona o “porquê” da crise, incorporando valores. A pesquisadora sustenta que modelos não devem apenas descrever o funcionamento, mas refletir sobre o que convém aos ecossistemas e às sociedades.
Para articular economia e moral, Mouysset aponta que a economia torna visíveis trocas ambientais, como a polinização entre apicultores e agricultores. Contudo, o valor pode permanecer instrumental ou ganhar dimensão ética.
Ela cita debates históricos, como a abolição da escravatura, para ilustrar como o equilibrium entre economia e moral pode evoluir. Não é utópico, defende, desde que haja educação e instituições participativas.
Sobre o papel do mercado na biodiversidade, a investigadora admite que mercados podem valer instrumentos como a beleza ou o risco de extinção. No entanto, valores intrínsecos não se traduzem em preços.
Quanto a um eventual mercado de biodiversidade semelhante ao carbono, considera que não faria sentido universalmente. Os riscos e dinâmicas locais pedem enfoques diferentes, com maior envolvimento comunitário.
A entrevista sublinha que debates justos exigem conhecimento sólido e instituições participativas. Educação e participação cidadã aparecem como pilares para evitar soluções impostas por especialistas.
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