- O surto de calor em maio na Europa gerou desinformação online que questiona a ciência climática e o consenso, envolvendo assédio a investigadores.
- Publicações afirmam que ondas de calor históricas demonstram que as temperaturas atuais não são extraordinárias.
- Outras mensagens alegam que os registos de temperatura são enganadores devido à ilha de calor urbana ou a manipulação deliberada.
- Cientistas dizem que a desinformação alimenta hostilidade contra especialistas, principalmente nas redes sociais.
- Conclusões científicas mantêm que ondas de calor atuais são mais frequentes e profundas por causa das mudanças climáticas induzidas pelo homem, e que os registos de temperatura são validados por vários grupos internacionais.
O que aconteceu: uma onda de calor registada em maio percorreu a Europa, gerando temperaturas elevadas em várias regiões e desencadeando uma vaga de desinformação sobre as alterações climáticas. As afirmações, já conhecidas, questionam a seriedade dos dados científicos e sugerem manipulação de registos.
Quem está envolvido: cientistas do clima da ETH Zurique, da Stripe e do Berkeley Earth, bem como especialistas do KNMI, enfrentam ataques online ao partilhar informações verificadas sobre o aquecimento global. As autoridades espanholas já tinham referido um aumento de abusos online contra cientistas do clima no início do ano.
Quando e onde: a onda de calor ocorreu em maio na Europa, com particular incidência em cidades como Londres e Madrid. A equipa de verificação de factos da Euronews acompanhou as declarações nas redes sociais, sobretudo na plataforma X.
Porquê: os meteorologistas explicam que as temperaturas atuais aumentam a frequência e intensidade de eventos extremos devido às alterações climáticas induzidas pela intervenção humana. Paralelamente, a desinformação procura minar a credibilidade da ciência e alimenta hostilidade online contra investigadores.
Desinformação no centro do debate
Verheggen, do KNMI, diz que a desinformação persiste e mudou de foco ao longo do tempo. A ciência está mais clara e aceite, mas forças opositoras endureceram as suas posições. A negação tende a afastar-se da pergunta se o planeta aqueceu e dirige-se às consequências e políticas de mitigação.
Estas dinâmicas não são novas. A hostilidade não se limita a plataformas sociais: casos históricos de ataques a cientistas da área ambiental já foram documentados por organizações especializadas. O assédio afeta sobretudo investigadores do sexo feminino.
Testemunhos e evidências
Seneviratne, da ETH Zurique, indica que a agressão online tem aumentado após a publicação de informações sobre o calor extremo. Ela relata recebimento de mensagens negativas em redes sociais logo após partilhar dados, sugerindo possível atividade de bots.
Zeke Hausfather, da Stripe e do Berkeley Earth, descreve situações de insultos online para si e para colegas, com impacto particularmente grave em pesquisadoras. O repúdio público tem vindo a intensificar-se.
Percepção científica e dados
Além de negar o aquecimento, algumas mensagens contestam a fiabilidade de registos de temperatura, citando o efeito de ilha de calor urbana. Cientistas explicam que esse fenómeno amplifica temperaturas locais, não alterando tendências globais a longo prazo.
Hausfather reforça que nove grupos independentes de investigadores nos EUA, Reino Unido, UE, Japão e China produzem registos globais de temperatura com alta concordância entre métodos e dados diferentes, o que valida as medições.
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