- A crise de fertilizantes na Europa resulta da guerra no Irão, do bloqueio do Estreito de Ormuz e da dependência da Rússia como fornecedor.
- O gás natural subiu significativamente, com o preço de referência europeu (TTF) a passar de cerca de 32 para quase 52 euros por megawatt-hora, impactando cerca de 80% dos custos de produção dos fertilizantes azotados.
- Na Alemanha, os preços de fertilizantes azotados subiram, com aumentos em estados como a Baixa Saxónia (~15% num mês) e com a ureia mais cara em Schleswig-Holstein desde o início da guerra.
- A Rússia continua a ser o maior fornecedor mundial; a UE aplica tarifas especiais a fertilizantes russos e Bielorrussos, enquanto se discute suspender direitos aduaneiros para facilitar alternativas.
- A produção nacional de fertilizantes na Alemanha está sob pressão devido aos custos do gás; há receios de encerramento de unidades locais, o que ameaça a segurança do abastecimento e pode afetar os preços a prazo.
A crise dos fertilizantes na Europa intensifica-se numa altura de encomendas da primavera. O mercado enfrenta dois golpes: o bloqueio do Estreito de Ormuz elevado pelos acontecimentos no Irão e o aumento dos custos de gás, resposta direta à dependência europeia de fornecedores russos.
O Estreito de Ormuz, eixo-chave do comércio mundial de fertilizantes, está bloqueado desde o final de fevereiro. Países produtores como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Qatar não conseguem enviar ureia e amoníaco conforme o planeado, agravando a pressão sobre a oferta na Europa. Paralelamente, o gás natural europeu subiu para perto de 52 euros por megawatt-hora, tornando-se um fator decisivo para 80% dos custos de produção dos fertilizantes azotados.
Os preços dos fertilizantes azotados disparam em várias regiões. Na Baixa Saxónia, o salitre de amónio e cal registrou um aumento de cerca de 15% num mês. Em Schleswig-Holstein, a ureia já custa consideravelmente mais do que antes da crise iraniana. Ainda assim, a comunidade europeia não enfrenta, ainda, preços extremos equivalentes aos observados em 2022, quando a ureia ultrapassou os 1 000 euros por tonelada, e o stock continua, em princípio, disponível para a época atual.
A crise não se resume apenas ao preço, mas também à logística. Comerciantes e transportadores lutam para responder à procura, o que eleva os custos de transporte e acentua o custo final do fertilizante. Agricultores menores, que mantêm exploração de menor dimensão, encontram maior dificuldade em assegurar reservas para o outono frente a estas oscilações de preço.
A Rússia permanece como o principal fornecedor mundial de fertilizantes, com cerca de 22% das importações da UE em 2025 e 45 milhões de toneladas exportadas no ano, segundo a Comissão Europeia. A dependência persiste na Europa de Leste, onde países como Polónia, Estónia, Letónia e Bulgária recorrem a fertilizantes russos para complementar produção nacional. Em face de novas tarifas e de propostas da UE para facilitar importações de outras regiões, cresce o debate sobre soberania alimentar e resiliência industrial.
Na Alemanha, a indústria de fertilizantes enfrenta o dilema de manter a produção face ao custo elevado do gás russo. Algumas fábricas de fertilizantes nacionais encontram-se sob risco de encerramento se não houver condições económicas estáveis, o que pode afetar a independência da oferta e a pegada ambiental, dada a maior expertise ambiental europeia na produção local.
Fontes do setor destacam que uma produção nacional robusta de fertilizantes é crucial para a segurança do abastecimento e para a estabilidade de preços. A suspensão de medidas como o Mecanismo de Ajustamento Fronteiriço do carbono pode-complicar o equilíbrio entre custos e competitividade. A indústria teme também a possível escassez de enxofre e outras matérias-primas, subprodutos da exploração de gás, com impactos na produção europeia e em regiões vulneráveis a cenários de crise.
O debate continua entre autoridades e produtores sobre como reduzir a dependência externa e manter a oferta estável sem prejudicar a competitividade. As decisões políticas, ainda, demoram a traduzir-se em medidas que aliviem o setor e assegurem abastecimento suficiente para a próxima época de plantação.
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